
Acordaria de noite, num descampado, deitado na terra batida. Ao longe, as luzes duma cidade iam-se formando à medida que conseguia adaptar-me à escuridão. Estaria vestido de gala, com um smoking alugado: no bolso, o cartão da loja: "Super Dog Fits". Mesmo em frente a mim, um anãozinho com Trissomia 21 aponta numa direcção. Olho e é uma construção de cimento, daquelas da electricidade, a uns 100 passos de mim. Levanto-me e aproximo-me dela. Começa a tocar um telefone com aquelas campaínhas antigas. Consigo abrir a porta e atendo: tudo o que digo retorna para mim como um eco e eu desligo, assustado. Corro em direcção às luzes da cidade e tropeço no mesmo telefone que atendi há pouco, caindo desmaiado.
Na cena seguinte acordo na minha cama: a Daisy está vestida com uma coleira da "Super Dog Fits". Levanto-me: a minha companheira de casa, uma loira chamada Leslie estranha-me ao sair do quarto e afirma que vieram procurar-me por causa do bilhete premiado num concurso. Visto-me à pressa e pelo caminho, no carro, vou vendo a publicidade aos novos condomínios de luxo na outra ponta da cidade.
Entro num prédio enorme, com carpete vermelha e mobília retro, onde reclamarei o meu prémio. Na sala principal está sentado um anão numa cadeira dourada, que me aponta a secretária, onde toca um telefone, que não atendo, e onde está apenas pousado um bilhete: "Congratulations John. You're know invited to join SDF Corporation".
Pego no bilhete e vou encontrar-me com os meus amigos, num bar de jazz. A sala está pouco cheia, a voz da ruiva deitada no piano ecoa por todo o lado, enquanto ela canta, pausando a melodia para sorver um trago de Blue Curaçao e arranjar o vestido vermelho escarlate. Todos a observam petrificados e eu queimo-me com a chávena de chá.
Ao sair do bar, um carro pára-me e obriga-me a entrar. Lá dentro, a minha colega de casa amarrada e amordaçada. Três homens de fato escuro, com óculos de sol e a inscrição SDF no bolso dos blazers. Pergunto o que se passa e um deles responde-me com uma voz fininha: "Paradise... paradise... paradise..."
São as últimas palavras que me recordo, antes de adormecer anestesiado. E de repente acordar, sentindo a terra batida por baixo do meu pescoço. De novo de noite e o anãozinho, bastante mais velho, gritando com as mãos na cabeça e pedindo-me: "Don't answer the phone!" transtornado, agitando-se e correndo pelo descampado.
Levanto-me, tenho a mão queimada pela chávena de chá mas noutro ponto que não naquele onde realmente me queimei. No bolso, o bilhete premiado e um telemóvel, chamando com um toque polifónico dos Beach Boys. Olho-o e hesito...